A oração intercessora de Abraão

Abaixo catquese do Papa do dia 18-05 sobre a oração intercessora de Abraão. Vale a pena ler.

Queridos irmãos e irmãs:

Nas duas últimas catequeses, refletimos sobre a oração como fenômeno universal, que – inclusive de diversas formas – está presente nas culturas de todas as épocas. Hoje, no entanto, eu gostaria de começar um percurso bíblico sobre este tema, que nos conduzirá a aprofundar no diálogo de aliança entre Deus e o homem, presente na história da salvação, até o seu cume, a Palavra definitiva que é Jesus Cristo. Este caminho nos fará deter-nos em alguns textos importantes e figuras paradigmáticas do Antigo e do Novo Testamentos. Será Abraão, o grande patriarca, pai de todos os crentes (cf. Rm 4,11-12.16-17), quem nos oferecerá o primeiro exemplo de oração, no episódio de intercessão pela cidade de Sodoma e Gomorra. E eu gostaria de vos convidar a aproveitar este percurso que faremos nas próximas catequeses para aprender a conhecer melhor a Bíblia, que espero que tenhais em vossas casas; e, durante a semana, podeis lê-la e meditá-la na oração, para conhecer a maravilhosa história da relação entre Deus e o homem, entre o Deus que se comunica conosco e o homem que responde, que reza.

O primeiro texto sobre o qual refletiremos se encontra no capítulo 18 do livro do Gênesis; conta-se que a maldade dos habitantes de Sodoma e Gomorra estava chegando ao seu limite, tanto que se fez necessária uma intervenção de Deus para realizar um grande ato de justiça e frear o mal, destruindo aquelas cidades. Aqui intervém Abraão, com sua oração de intercessão. Deus decide revelar-lhe o que vai lhe acontecer e lhe faz conhecer a gravidade do mal e suas terríveis consequências, porque Abraão é seu escolhido, escolhido para construir um grande povo e fazer que o mundo inteiro alcance a bênção divina. A sua é uma missão de salvação, que deve responder ao pecado que invadiu a realidade do homem; através dele, o Senhor quer levar a humanidade à fé, à obediência, à justiça. E então, este amigo de Deus se abre à realidade e às necessidades do mundo, reza pelos que estão a ponto de ser castigados e pede que sejam salvos.

Abraão enfrenta, logo depois, o problema em toda a sua gravidade e diz ao Senhor: “Vais realmente exterminar o justo com o ímpio? Se houvesse cinquenta justos na cidade, acaso os exterminarias? Não perdoarias o lugar por causa dos cinquenta justos que ali vivem? Longe de ti proceder assim, fazendo morrer o justo com o ímpio, como se o justo fosse igual ao ímpio! Longe de ti! O juiz de toda a terra não faria justiça?” (vv. 23-25). Com estas palavras, com grande coragem, Abraão apresenta a Deus a necessidade de evitar a justiça sumária: se a cidade é culpada, é justo condenar e infligir a pena, mas – afirma o grande patriarca – seria injusto castigar de modo indiscriminado todos os habitantes. Se na cidade há inocentes, estes não podem ser tratados como culpados. Deus, que é um juiz justo, não pode agir assim, diz Abraão, justamente, a Deus.

Ao lermos mais atentamente o texto, percebemos que a petição de Abraão é ainda mais séria e profunda, porque não se limita a pedir a salvação para os inocentes. Abraão pede o perdão para toda a cidade e o faz apelando à justiça de Deus. Ele diz, de fato, ao Senhor: “Não perdoarias o lugar por causa dos cinquenta justos que ali vivem?” (v. 24b). Dessa maneira, coloca em jogo uma nova ideia de justiça: não a que se limita a castigar os culpados, como os homens fazem, mas uma justiça diferente, que busca o bem e o cria através do perdão que transforma o pecador, converte-o e o salva. Com a sua oração, portanto, Abraão não invoca uma justiça meramente retributiva, mas uma intervenção de salvação que, levando em conta os inocentes, liberta da culpa também os ímpios, perdoando-os. O pensamento de Abraão, que parece quase paradoxal, poderia se resumir assim: obviamente, não se pode tratar os inocentes como os culpados, isso seria injusto; é necessário, no entanto, tratar os culpados como os inocentes, realizando um ato de justiça “superior”, oferecendo-lhes uma possibilidade de salvação, porque, se os malfeitores aceitam o perdão de Deus e confessam sua culpa, deixando-se salvar, não continuarão fazendo o mal; eles se converterão também em justos, sem necessitar jamais ser castigados.

É esta a petição de justiça que Abraão expressa em sua intercessão, uma petição que se baseia na certeza de que o Senhor é misericordioso. Abraão não pede a Deus uma coisa contrária à sua essência; ele bate à porta do coração de Deus conhecendo sua verdadeira vontade. Já que Sodoma é uma grande cidade, cinquenta justos parecem pouca coisa, mas a justiça de Deus e seu perdão não são talvez a manifestação da força do bem, ainda que este pareça menor e mais fraco que o mal? A destruição de Sodoma deveria frear o mal presente na cidade, mas Abraão sabe que Deus tem outras maneiras e meios para frear a difusão do mal. É o perdão que interrompe a espiral do pecado e Abraão, em seu diálogo com Deus, apela exatamente a isso. E quando o Senhor aceita perdoar a cidade se encontrar nela cinquenta justos, sua oração de intercessão começa a descer aos abismos da misericórdia divina. Abraão – como recordamos – diminui progressivamente o número dos inocentes necessários para a salvação; se não forem cinquenta, poderiam ser quarenta e cinco, e assim por diante, até chegar a dez, continuando com a sua súplica, que se torna audaz na insistência: “E se forem só quarenta… trinta… vinte… dez?” (cf. v. 29. 30. 31. 32). E, quanto menor é o número, maior se revela e se manifesta a misericórdia de Deus, que escuta com paciência a oração, acolhe-a e repete depois de cada súplica: “Perdoarei… Não a destruirei… Não o farei” (cf. v. 26. 28. 29. 30. 31. 32).

Assim, pela intercessão de Abraão, Sodoma poderá ser salva, se nela se encontrarem apenas dez inocentes. Este é o poder da oração. Porque, através da intercessão, da oração a Deus pela salvação dos outros, se manifesta e se expressa o desejo de salvação que Deus tem sempre com relação ao pecador. O mal, de fato, não pode ser aceito, deve ser apontado e destruído através do castigo: a destruição de Sodoma tinha esta intenção. Mas o Senhor não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva (cf. Ez 18,23; 33,11); seu desejo é perdoar sempre, salvar, dar a vida, transformar o mal em bem. E este é o desejo divino que, na oração, se torna também desejo do homem e se expressa por meio das palavras de intercessão. Com sua súplica, Abraão está emprestando sua voz, mas também seu coração à vontade divina: o desejo de Deus é misericórdia, amor e vontade de salvação, e este desejo de Deus encontrou em Abraão e na sua oração a possibilidade de manifestar-se de maneira concreta na história dos homens, para estar presente onde há necessidade de graça. Com a voz da sua oração, Abraão está dando voz ao desejo de Deus, que não é o de destruir, mas o de salvar Sodoma, dar vida ao pecador convertido.

Isso é o que o Senhor quer, e seu diálogo com Abraão é uma prolongada e inequívoca manifestação do seu amor misericordioso. A necessidade de encontrar homens justos na cidade se converte cada vez mais em menos exigente e, no final, bastam dez para salvar a totalidade da população. Por que motivo Abraão se deteve em dez, o texto não diz. Talvez seja um número que indica um núcleo comunitário mínimo (ainda hoje, dez pessoas constituem o quorum necessário para a oração hebraica). De qualquer forma, trata-se de um número exíguo, uma pequena parcela do bem para salvar um grande mal. Mas nem sequer dez justos se encontravam em Sodoma e Gomorra e as cidades foram destruídas – uma destruição paradoxalmente necessária para a oração de intercessão de Abraão. Porque precisamente essa oração revelou a vontade salvífica de Deus: o Senhor estava disposto a perdoar, desejava fazê-lo, mas as cidades estavam fechadas em um mal total e paralisante, sem ter nem ao menos alguns poucos inocentes a partir dos quais começar a transformar o mal em bem.

Porque é este o caminho de salvação que também Abraão pedia: ser salvos não quer dizer simplesmente escapar do castigo, mas ser libertados do mal que nos habita. Não é o castigo que deve ser eliminado, mas o pecado, essa rejeição de Deus e do amor que leva em si o castigo. Dirá o profeta Jeremias ao povo rebelde: “Teu crime te castigue, tua infidelidade sirva para tua correção! Reconhece e vê como é ruim e amargo teres abandonado o Senhor, teu Deus” (Jer 2,19). É dessa tristeza e amargura que Deus quer salvar o homem, libertando-o do pecado. Mas é necessária uma transformação a partir do interior, uma gota de bem, um começo do qual partir para transformar o mal em bem, o ódio em amor, a vingança em perdão. Por isso, os justos tinham que estar dentro da cidade e Abraão continuamente repete: “Talvez lá haja…”, “lá”: é dentro da realidade doente que deve estar esse gérmen de bem que pode curar e devolver a vida. É uma palavra dirigida também a nós: que em nossas cidades haja um gérmen de bem; que façamos o necessário para que não sejam apenas dez justos, para conseguir realmente fazer que nossas cidades vivam e sobrevivam, para salvá-las dessa amargura interior que é a ausência de Deus. E, na realidade doente de Sodoma e Gomorra, aquele gérmen de bem não estava presente.

Mas a misericórdia de Deus na história do seu povo se amplia mais tarde. Se para salvar Sodoma eram necessários dez justos, o profeta Jeremias dirá, em nome do Onipotente, que basta somente um justo para salvar Jerusalém: “Percorrei as ruas de Jerusalém, olhai, descobri, procurai também nas praças, se há alguém que pratique o direito, alguém que busque a sinceridade, para que, então, eu perdoe a cidade” (Jer 5,1). O número diminuiu mais ainda, a bondade de Deus se mostra ainda maior. E nem sequer isso basta, a sobreabundante misericórdia de Deus não encontra a resposta do bem que busca e Jerusalém cai sob o assédio dos inimigos. Será necessário que Deus se converta nesse justo. E este é o mistério da Encarnação: para garantir um justo, Ele mesmo se faz homem. O justo estará sempre presente, porque é Ele: é necessário que o próprio Deus se converta nesse justo. O infinito e surpreendente amor divino é manifestado em sua plenitude quando o Filho de Deus se faz Homem, o Justo definitivo, o perfeito Inocente, que levará a salvação ao mundo inteiro morrendo na cruz, perdoando e intercedendo por aqueles que “não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Então, a oração de todo homem encontrará resposta; então, todas as nossas intercessões serão plenamente escutadas.

Queridos irmãos e irmãs, a súplica de Abraão, nosso pai na fé, nos ensina a abrir cada vez mais o coração à misericórdia sobreabundante de Deus, para que, na oração cotidiana, saibamos desejar a salvação da humanidade e pedi-la com perseverança e confiança ao Senhor, que é grande no amor.

Obrigado!

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Sobre catolicosconservadores
Casado, advogado, católico.

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