A Visitação

Hoje, festa litúrgica da visitação da Virgem Maria à sua prima Santa Isabel, compartilho uma meditação de Paul Claudel.

O sacerdote Zacarias De Hebron, pai de João, era uma espécie de Pope (sacerdote de rito ortodoxo) ou, como um de nossos curas,

pois, aos sacerdotes daquele tempo era permitido se casarem.

E, sem dúvida, havia, igualmente, um jardinzinho atrás do presbitério,

repleto daquelas flores de odores fortes, especialmente em dias caniculares.

 Foi para lá que Maria, “abiens in montana”, se dirigiu, para visitar sua prima, Isabel.

A prima a olha e exclama: “Ah!” Ela diz, apenas: “Ah!” e baixa a cabeça,

pois compreendeu tudo, naquele momento. Seu seio estremeceu, profundamente,

e, juntando suas mãos humildes, de pobre mulher, murmurou, baixinho: “Unde hoc mihi?”

Parece-me também lá estar, a tudo observar.

Vejo os ângulos de seus pobres lábios, a tremer, e as lágrimas que surgem, de repente.

Lágrimas profundas de pessoas cuja juventude se foi, de um coração enfraquecido, a desfalecer

e o esgar da face, quando choramos ou como sorrimos.

A mulher chora, mas, brilha em seus olhos uma alegria incomensurável.

A mãe de São João Batista admira a Mãe do meu Deus!

Ó bem-aventurada Isabel, que viste Maria no primeiro Stabat,

a Sabedoria eterna de Deus a recitar o Magnificat!

Ah! Possamos, assim como tu, naquela noite, no pequeno jardim judaico,

refazer, como todos os fiéis católicos, esta caminhada, passo a passo,

e quando tivermos aberto inteiramente, o nosso coração pleno de culpas, e tivermos dito tudo,

possamos sentir em nossas mãos trêmulas, os dedos de nossa Mãe, Maria!

“Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, Bendita sois vós, entre todas as mulheres.”

 Paul Claudel (1868-1955)

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A Bíblia e o frei

Sem citar nomes, Dom Antonio Augusto Dias Duarte – bispo auxiliar do Rio de Janeiro – refuta artigo de Frei Betto defendendo a homossexualidade. Graças a Deus começam a aparecer homens capazes de dizer a verdade em face de toda a onda que está disseminando por aí.
 
A Bíblia e o frei
 

 

O conhecido dicionário Aurélio é muito claro quando diz que Frei é substantivo masculino, é forma suprimida de freire, é utilizado para distinguir de freira, que é um substantivo feminino, usado para designar religiosa, monja, madre, professora. A mesma clareza aparece quando diz que a Bíblia é o conjunto dos livros sagrados do Antigo e do Novo Testamento, de importância capital, pelo qual se tem predileção incomum, interpretado há 2.000 anos por todos que pretendem desvelar o sentido mais exato de suas palavras e dos personagens nele presentes.

A Bíblia e o frei é o título que encabeça este artigo sobre os juízos humanos acerca do homossexualismo e das uniões homoafetivas, mas não tem a mínima pretensão de responder a um outro artigo de um conhecido irmão religioso que goza de certo prestígio midiático.

Essas linhas querem ser respeitosas e tão claras quanto o Aurélio, tampouco querem ser acusativas daquele que se elevou à categoria de supremo e infalível hermeneuta da Bíblia em matéria de sexualidade humana. Acontece, porém, que os homens passam, mas a Bíblia persiste e ilumina as várias gerações da humanidade, especialmente quando na sua história surgem questões tão complexas e difíceis, como são a homossexualidade e a homoafetividade, especialmente se forem consideradas dentro da visão exclusivamente hermenêutica e pluralizadora.

A pessoa homossexual ou as pessoas que procuram viver uma união afetiva não podem ficar presas só a um parecer jurídico, nem tampouco só a um processo legislativo, menos ainda só a uma problemática social de violência e discriminação. Nem sentenças de tribunais, nem projetos de lei que tramitam nos parlamentos, nem sequer a vitimização levantada a respeito dessas pessoas, entram num âmbito bíblico mais amplo e real tão próprio daquelas igrejas cristãs e da Igreja Católica quando elas defendem com amor e justiça as pessoas com essas tendências.

A Bíblia na sua mensagem essencial e transcendental revela-nos Deus no âmbito íntimo do mistério trinitário, no espaço delimitado da sua Encarnação histórica e na sua dimensão salvadora do homem concreto. Quando se parte dessa Verdade, e não das minúsculas e estreitas considerações de alguns ‘donos da verdade’, chega-se ao conhecimento profundo da pessoa humana, misteriosa na sua humanidade e encarnada no tempo e no espaço, revelando-nos em Deus o seu valor absoluto e a sua dignidade inviolável e inefável.

A Bíblia dá um enorme passo quando nos conduz ao ponto central de todas as complexas e difíceis perguntas acerca do ser humano. Quem é o homem? Para onde dirige sua vida? Por quê da sua realidade histórica-moral? Como deve ser considerado e julgada a sexualidade humana?

Todos esses questionamentos permanecem na superfície externa das culturas e das análises interpretativas de freis e freiras, de juízes e juízas, de padres e políticos, das próprias pessoas envolvidas nas decisões afetivas, quando não há a devida profundidade na revelação bíblica sobre quem é o homem, quem é a mulher, na única, fundamental e inequívoca verdade: “Deus disse: façamos o ser humano à nossa imagem e segundo a nossa semelhança (…). Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus os criou. Homem e mulher Ele os criou” (Gen. I, 25-27).

Aqui não há hermenêutica, nem singularizadora nem pluralizadora! Aqui há verdade! Aqui há imagem digna de ser reconhecida e respeitada! Aqui há identidade sublime! O que vem depois a essa revelação, isto é, os fatores biológicos, raciais, étnicos, sexuais, culturais, etc., só podem ser considerados a favor do bem das pessoas se as interpretações “politicamente corretas” forem desmascaradas e descartadas.

Em primeiro lugar, é politicamente inexato dizer que as pessoas nascem assim, pré-determinadas a uma biologia ou sujeitas necessariamente a uma definição cultural sobre a sua raça ou sobre o seu sexo. Todas as pessoas são concebidas, nascem e crescem, desenvolvem-se e escolhem novos caminhos, sempre com liberdade de quererem viver de acordo com essa intrínseca dignidade. Cabem a elas, somente a elas, e não a “pretensos hermeneutas”, darem contas a seu Criador e Redentor das suas decisões, dos seus acertos e dos seus possíveis pecados e erros na vida.

Em segundo lugar é hermeneuticamente correto dizer que a Bíblia deve ter no nosso mundo cultural e teológico o reconhecimento de seu valor divino e sagrado, bem como ser lida nos seus diversos livros, respeitando as regras hermenêuticas que permitem a autêntica interpretação literal e espiritual das suas sentenças e dos seus ensinamentos divinos.

A Bíblia é e será sempre a Palavra de Deus, palavra que revela o Criador do Céu e da Terra, a identidade divina e humana de Jesus Cristo, Redentor e, como complemento essa mesma Palavra ilumina os autênticos valores antropológicos e filosóficos que sempre, em qualquer época e cultura, influenciam positivamente a história da humanidade.

Ainda há tempo – se alguns freis, alguns ministros de tribunais, alguns políticos, alguns padres e alguns pastores permitirem –, de recuperar plenamente o sentido da Bíblia como o grande código de vida para as culturas, incluindo aqui também a cultura gay, para pensar e direcionar melhor todas as considerações sobre a homossexualidade.

Se isso, de fato, acontecer na cultura brasileira haverá mais espaço para Deus, para que sobressaia o rosto e a voz de seu Filho, Jesus Cristo e, consequentemente, haverá mais espaço para o rosto do ser humano destacar-se no meio de todas as suas maravilhas, dos seus desvios e das suas limitações.

Enquanto as ideologias existirem como um pacote que se deve aceitar e assumir em nível de militância na sua totalidade programática, o que em bom português significa “pegar ou largar” as idéias em lote, a Bíblia sempre existirá para que cada pessoa, com suas particularidades e com sua história singular, reconheça-se e valorize-se como criatura de Deus e como filha no Filho Eterno do Pai por obra do Espírito Santo, a fim de que responda à vocação do amor e da comunhão nela inscrita e aceite a própria identidade sexual e a viva na sua especificidade e na sua complementaridade.

Desde essa dignidade natural e sobrenatural compreende-se muito bem que as pessoas com tendências homossexuais chamadas à castidade pela via do autodomínio, da educação da afetividade e da liberdade interior e com o apoio de uma amizade desinteressada, além da graça sacramental, possam e devam se aproximar com confiança da perfeição cristã (cf. Catecismo da Igreja católica, n. 2359).

Dom Antonio Augusto Dias Duarte

Bispo Auxiliar da Arquidiocese do Rio de Janeiro

 

Nova paróquia em Poços de Caldas?

Temos escutado que um “tal” Pe. Rodrigo vai inaugurar uma nova paróquia em Poços de Caldas: a Paróquia do Bom Jesus. Dito padre já tem um programa numa rádio local e isso tem confundido a população católica de Poços de Caldas, pois não se trata de um padre da Igreja Católica Apostólica Romana, mas sim da Igreja Católica Apostólica Carismática (será um joio saído dos trigos da Renovação Carismática Católica?)

Segue abaixo comunicado oficial da Diocese de Guaxupé sobre a tal paróquia:

DIVULGUEM A TODOS SEUS AMIGOS E CONHECIDOS / DIOCESE DE GUAXUPÉ

 

DIOCESE DE GUAXUPÉ

Assessoria de Comunicação

NOTA DE ESCLARECIMENTO

A Cúria Diocesana de Guaxupé recebeu informações de que, em breve, será criada a “Paróquia Bom Jesus”, na cidade de Poços de Caldas – MG, pertencente a esta Circunscrição Eclesiástica (Diocese). Vimos a público esclarecer os fatos, conforme se segue:
Esta “paróquia” não pertence à Igreja Católica Apostólica Romana e não é reconhecida pela Diocese de Guaxupé.
Ainda que a citada igreja alegue comunhão com o Santo Padre Bento XVI e faça uso de símbolos e linguagem católicos, ESCLARECEMOS que a “paróquia” faz parte da IGREJA CATÓLICA APOSTÓLICA CARISMÁTICA; NÃO HAVENDO NENHUM TIPO DE COMUNHÃO OU RELAÇÃO COM A IGREJA CATÓLICA APOSTÓLICA ROMANA.
Apuramos, nesse contexto, que algumas pessoas ligadas a essa igreja se apresentam na cidade e nos meios de comunicação  autodenominando-se “padres”, “bispo” e – nessa condição – celebram missas e dirigem novenas dedicadas a santos da Igreja Católica Apostólica Romana. REITERAMOS QUE NÃO RECONHECEMOS NENHUMA DESSAS PRÁTICAS.
Vale destacar que a criação de Paróquias no território da Diocese é prerrogativa do bispo diocesano. Sendo assim, cabe ressaltar também que Dom José Lanza Neto, bispo da Diocese de Guaxupé, no exercício de seu ministério episcopal, NÃO CRIOU E NEM CRIARÁ, EM BREVE, NENHUMA NOVA PARÓQUIA NA CIDADE DE POÇOS DE CALDAS – MG.
A Igreja Católica Apostólica Carismática também NÃO É LIGADA À RENOVAÇÃO CARISMÁTICA CATÓLICA (movimento reconhecido pelo Vaticano, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e Conselho Diocesano de Pastoral).
Sendo assim, ante os atos de abuso da boa fé do povo católico apostólico romano daquela cidade, julgamos importante alertar à população que os atos (missas, bênçãos e novenas etc.) realizados, não têm efeito sacramental ou canônico; desta forma NÃO SÃO – SOB NENHUMA CONDIÇÃO – RECONHECIDOS PELA DIOCESE DE GUAXUPÉ.
Por último, para que não reste nenhuma dúvida, ainda que as pessoas ligadas à “Paróquia Bom Jesus” se apresentem e/ou digam que estão em sintonia – no exercício do “ministério” – com a Igreja Católica Apostólica Romana; isso não se aplica. A criação arbitrária de uma “paróquia”, a não apresentação formal ao bispo diocesano e a confusão de entendimento criada junto aos nossos fiéis são provas inquestionáveis da falta de comunhão com este Bispado.
 
Guaxupé, 20 de maio de 2011

Retirei do site www.ahoradamissa.com este texto abaixo sobre os abusos litúrgicos. Acrescentei algumas imagens chocantes.Infelizmente, vemos e às vezes até pactuamos, aceitamos ou fazemos o que não se pode fazer em termos de liturgia.

O que pode o que não pode se fazer em termos de liturgia

“Os abusos, sem dúvida, «contribuem para obscurecer a reta fé e a doutrina católica sobre este admirável Sacramento». Desta forma, também se impede que possam «os fiéis reviver de algum modo a experiência dos discípulos de Emaús: Então se lhes abriram os olhos e o reconheceram»… Não é estranho que os abusos tenham sua origem em um falso conceito de liberdade. Posto que Deus nos tem concedido, em Cristo, não uma falsa liberdade para fazer o que queremos, mas sim a liberdade para que possamos realizar o que é digno e justo. Isto é válido não só para os preceitos que provêm diretamente de Deus, mas sim também, de acordo com a valorização conveniente de cada norma, para as leis promulgadas pela Igreja. Por isso, todos devem se ajustar às disposições estabelecidas pela legítima autoridade eclesiástica” (Redemptionis Sacramentum).

Abusos litúrgicos: o que são e o que se deve fazer para combatê-los

O abuso litúrgico é antes de tudo uma falsificação da liturgia católica, no dizer da Instrução Redemptionis Sacramentum. Todo católico tem o direito de ver celebrada a sagrada liturgia sem improvisações, sem experimentação, de acordo com as normas estabelecidas pela Santa Sé. Esse direito reclama dos presbíteros e também dos demais fiéis o dever de observar fielmente as regras litúrgicas. Todo católico deve, portanto, instruir-se a respeito do assunto e lutar, com maturidade e serenidade, para que os Santos Mistérios sejam celebrados segundo a liturgia determinada pela Igreja.

Selecionamos, a seguir, alguns equívocos infelizmente freqüentes, em termos de liturgia. Lembramos, mais uma vez, que a leitura da Instrução Redemptionis Sacramentum é importantíssima. Também recomendamos a leitura da Instrução Geral do Missal Romano, nos tópicos de interesse.

Por fim, um convite à prudência. A premissa com que se deve trabalhar é: sem caridade, melhor não agir. O dano de uma correção feita sem caridade pode ser maior que o próprio abuso. O fiel deve, portanto, apoiar-se, primeiro, na caridade, segundo, na caridade, terceiro, na caridade, ao tomar a iniciativa de apontar um abuso litúrgico. A título de sugestão, recomendaríamos o engajamento nas equipes pastorais responsáveis pelo auxílio à liturgia, como forma de melhor educar a comunidade. Se o equívoco for feito pelo próprio sacerdote, deve-se conversar diretamente com ele, sem antecipar o assunto com outros fiéis, o que seria um desrespeito ao ministro de Deus. É claro que nos casos mais graves (vide “Graviora delicta” na Redemptionis Sacramentum), o assunto poderá exigir uma comunicação ao bispo.

 

 A infeliz mania dos leigos em rezar junto com o sacerdote

Os fervorosos fiéis da figura acima estão cometendo um dos equívocos mais comuns em termos de liturgia. Há orações que são próprias e exclusivasdo sacerdote. No caso específico, rezam o “Por Cristo, com Cristo, em Cristo…”, a doxologia com que o sacerdote encerra a anáfora (a parte central da missa). Só o padre pode pronunciá-la. Mesmo que o celebrante convide (“todos juntos!”, etc.) os fiéis deverão ficar em silêncio e responder, ao final, o solene “amém” (cf. IGMR 151).

Os leigos também não devem rezar a oração da paz (“Senhor Jesus Cristo, dissestes aos vossos apóstolos: Eu vos deixo a paz, Eu vos dou a minha paz…”). Só o sacerdote pronuncia essa oração.

Comportamento inconveniente dos fiéis

Conversas, barulho, alvoroço, danças… nada disso combina com a missa. Certamente haverá locais e circunstâncias propícias para extravasar a alegria de ser cristão. Na missa, vale a “regra de ouro”: o que não caberia fazer no Calvário, não cabe fazer na missa.

Estamos diante do sacrifício do Filho de Deus! No altar, Jesus oferece-se ao Pai como vítima, por nossos pecados. Portanto, conversar com o vizinho, atender chamadas de celulares, bater palmas ou fazer coreografias, danças, etc., nada disso é próprio na missa.

 Abusos cometidos pelo celebrante

 

A imagem acima, colhida na Internet, teria sido flagrada na Jornada Mundial da Juventude, em Toronto/2002. Se a cena é verdadeira, tudo está errado: o sacerdote não veste os paramentos como estabelecido (a casula, pelo menos, não está presente); o chapéu; os óculos escuros; o altar improvisado (um caixote!); nada, enfim, que lembre — nem de longe — a dignidade e a santidade do mistério que se celebra!

“Grande é o ministério «que na celebração eucarística têm principalmente os sacerdotes, a quem compete presidir in persona Christi (na pessoa do Cristo), dando um testemunho e um serviço de Comunhão, não só à comunidade que participa diretamente na celebração, mas sim também à Igreja universal, à qual a Eucaristia fez sempre referência. Infelizmente, ou lamentavelmente, sobretudo a partir dos anos da reforma litúrgica depois do Concílio Vaticano II, por um mal-entendido no sentido de criatividade e de adaptação, não se têm faltado os abusos, dos quais muitos têm sido causa de mal-estar» (R.S., 30).

 “Ministros da Eucaristia”

 O ministro da Eucaristia é o sacerdote. A Igreja recomenda não mais chamar os leigos que auxiliam o sacerdote na distribuição da comunhão de “ministros da Eucaristia”, “ministros extraordinários da Eucaristia”, “ministros especiais da Eucaristia” ou “ministros especiais da sagrada comunhão”. O nome recomendado é “ministros extraordinários da sagrada comunhão“.

Na verdade, só se admite sua presença quando o número de comungantes for tão grande que a distribuição da comunhão retardaria a missa além do que seria razoável. Sem essa condição, basta o acólito, para auxiliar o sacerdote na distribuição da comunhão.

Muitas  vezes vemos sacerdotes entregarem frações do pão eucarístico a leigos, o que é expressamente vedado pelas normas litúrgicas (vide R.S., 73). A fração do pão, iniciada depois de dar a paz e enquanto se reza o “Cordeiro de Deus” é realizada somente pelo sacerdote, ajudado, se for o caso, pelo diácono ou outro sacerdote concelebrante.

A distribuição da comunhão

Pode-se comungar de joelhos ou de pé. Quando se comunga de pé, recomenda-se fazer, antes de receber o Sacramento, a devida reverência (R.S., 90). Além disso, o fiel tem sempre o direito a escolher se deseja receber a sagrada Comunhão na boca ou se quer receber na mão o Sacramento. A forma tradicional de se comungar é diretamente na boca. Se prefere receber na mão, deve apresentar-se com as mãos abertas, sobrepostas, receptivas a receber a sagrada comunhão. Não é correto “pegar” a partícula como se fosse um objeto comum. Recebida a comunhão, o comungante deve consumi-la imediatamente, diante do ministro.

  

Mais ainda: “Não está permitido que os fiéis tomem a hóstia consagrada nem o cálice sagrado por si mesmos, nem muito menos que se passem entre si de mão em mão” (R.S., 94). A imagem acima mostra justamente um flagrante de desrespeito a essa norma. Não se deve permitir que a distribuição da comunhão seja do tipo self service, de modo que cada um tome a hóstia com as próprias mãos na âmbula e ministre a si mesmo a comunhão. Em se distribuindo a comunhão sob as duas espécies, a comunhão será obrigatoriamente dada diretamente na boca do comungante.

O indefensável sendo defendido

 

Veja abaixo entrevista que o Padre Gilvander deu a um jornal carioca, na qual defende união de pessoas do mesmo sexo. Ele é Mestre em Exegese Bíblica, professor de Teologia e assessor da Comissão Pastoral da Terra, Frei Gilvander disse que o Supremo está de parabéns por tornar visíveis as milhares de uniões homoafetivas do país. Será que depois disso o bispo deste sacerdote não vai fazer nada? Se punem aqueles que seguem a doutrina da Igreja, porque não punir aqueles que não só desobedecem, mas ensinam coisas erradas?
 
 
Como o senhor recebeu a decisão do Supremo?
GILVANDER MOREIRA: Com alegria, pois é uma vitória dos movimentos e dos grupos que historicamente vêm lutando pelo direito à liberdade sexual homossexual. Nesse caso, o STF posicionou-se com justiça e equidade. A sociedade está em constante transformação, e esse grupo em questão existe e está no dia a dia vivendo e construindo suas relações à margem da sociedade. Devido a isso, o Direito não podia mais se esconder ou continuar negando esse direito a relações homoafetivas. Foi um exemplo de coragem e cidadania. Tornou-se visível o invisível. Declara-se assim o início do fim da hegemonia da moral heterossexual. Abre caminho para a afirmação, à luz do dia, das mais de 60 mil uniões estáveis entre homossexuais no Brasil, que até aqui pagavam um altíssimo preço pela sua orientação sexual.
 
Como o senhor vê hoje a situação dos homossexuais no Brasil?
GILVANDER: Segundo o pesquisador Luiz Mott, da UFBA, o mais preocupante é que o registro de violência contra a população LGBT vem aumentando ao longo dos anos. De janeiro a novembro de 2010, Mott contabilizou 205 assassinatos. Estima-se que o número de casos de discriminação da população LGBT atinge entre 10 mil e 12 mil por ano no país.
 
O senhor considera a sociedade brasileira preconceituosa?
GILVANDER: Infelizmente estamos numa sociedade preconceituosa, intolerante, hipócrita e cínica. Ainda há muito moralismo, fundamentalismos e sectarismos em segmentos conservadores de igrejas e da sociedade, que ficaram irritados e questionam o acerto da decisão. No último Censo, foi declarado que há mais de 60 mil uniões estáveis homoafetivas no Brasil. O movimento que defende os direitos dos homossexuais está crescendo, o que é muito bom. Na decisão do STF , não se pode deixar de destacar e parabenizar a luta deste movimento, que vem marchando pelas ruas e erguendo suas bandeiras.
 
Já ouviu confissões de pessoas que se declararam homossexuais? Que conselhos costuma dar?
GILVANDER: Já ouvi. Uma, por exemplo, perguntou: “Gostei muito da sua homilia de ontem. Por isso, resolvi me confessar. Frei Gilvander, ser homossexual é pecado?”. Disse ainda que tinha lido um livro da Renovação Carismática que dizia que não era pecado ser homossexual, desde que não colocasse em prática o sentimento. Mas a pessoa disse que não tinha como não colocar em prática. Diante disto, preferia até se suicidar. Respondi que, se o elo mais forte de uma corrente é justamente o elo mais fraco, só poderá ser mais justo e aplaudido por Deus o elo enfraquecido e discriminado. Feliz do povo que ouve os clamores dos que fazem outra opção sexual senão a hegemônica. Deus ouve os clamores de todas as pessoas oprimidas. Deus é amor e não discrimina e nem pune ninguém por opção ou orientação sexual. Deus acolhe a todos sem distinção. Eu disse ainda que devemos respeitar todos, mas não podemos respeitar todos da mesma forma. Sentindo-se compreendida e acolhida, a pessoa desistiu do suicídio. Ergueu a cabeça, levantou-se e foi embora.
 
A união civil entre pessoas do mesmo sexo ameaça a família?
GILVANDER: Penso que não, por vários motivos. São minorias e há uma grande pluralidade de famílias hoje. Há famílias tradicionais; famílias só com mãe e filhos (monoparental); 80 mil famílias sobrevivendo debaixo da lona preta em acampamentos clamando por reforma agrária; milhares de famílias que sobrevivem apertadas em um único quarto de cortiço; milhões de famílias arrochadas em barracos nas favelas; famílias só “marido e mulher”, sem filhos. Por que não pode haver também famílias homossexuais?
 
Há referências diretas ou indiretas na Bíblia sobre o tema?
GILVANDER: Na Bíblia, o primeiro relato da Criação (Gênesis 1,1-2,4a) mostra o ser humano profundamente ligado a todas as criaturas do universo. De uma forma poética, o relato bíblico insiste na fraternidade de fundo que existe entre todos os seres vivos, que são uma beleza. Nas ondas da evolução, Deus, ao criar, sempre se extasia diante de todas as criaturas e exclama: “Que beleza! Bom! Muito bom!” O livro de Atos dos Apóstolos resgata, nas primeiras comunidades cristãs, essa mística ao dizer que não há nada impuro. Tudo é puro, é sagrado.
 
O que o senhor tem a dizer sobre o uso da camisinha?
GILVANDER: Devemos preservar a nossa vida, a do próximo e a de toda a biodiversidade. Para isso, são necessárias várias coisas, entre as quais o uso da camisinha nas relações sexuais. Por questão de saúde pública e respeito à sacralidade de cada um. Não podemos correr risco de contrair HIV e/ou doenças sexuais que matarão o outro aos poucos. Isso não tem o apoio do Deus da vida. Mas camisinha não é panaceia para todos os males. Enquanto houver sexismo, imoralidades e erotismo trombeteados aos quatro ventos por novelas e filmes, reduzindo a mulher a objeto, infelizmente só usar camisinha será paliativo. É preciso educação de qualidade e elevar o nível cultural do povo.
 
Sua posição a respeito de tais temas é solitária na Igreja?
GILVANDER: Não. Há muitos teólogos e teólogas, cristãos e cristãs, que partilham conosco essas posições. Todo o povo da Teologia da Libertação. Na Igreja, há membros que comungam conosco dessa visão mais compreensiva com os direitos das minorias. Há igrejas e não apenas uma igreja. Quando membros da Igreja instituição se posicionam de forma moralista, proselitista e autoritária, afugentam muitas pessoas. Mas quando membros da igreja ouvem, dialogam e, inspirados no evangelho de Jesus Cristo, testemunham o grande sonho do Deus, o da vida em liberdade e abundância, cativam muitas pessoas para se engajar em projetos humanizadores.
 

A luta de Jacó

Apresento a catequese do Papa no dia 25-05.

Queridos irmãos e irmãs:

Hoje, eu gostaria de refletir convosco sobre um texto do Livro do Gênesis que narra um episódio um pouco especial da história do patriarca Jacó. É um fragmento de difícil interpretação, mas importante na nossa vida de fé e de oração: trata-se do relato da luta com Deus no vau de Jaboc, do qual ouvimos um pedaço.

Como recordareis, Jacó tinha tirado do seu irmão Esaú a primogenitura, em troca de um prato de lentilhas, e depois recebeu de maneira enganosa a bênção do seu pai Isaac, que nesse momento era muito idoso, aproveitando-se da sua cegueira. Fugindo da ira de Esaú, refugiou-se na casa de um parente, Labão; tinha se casado, havia enriquecido e voltava à sua terra natal, disposto a enfrentar o seu irmão, depois de ter tomado algumas prudentes medidas. Mas quando tudo está preparado para este encontro, depois de ter feito que os que estavam com ele atravessassem o vau que delimitava o território de Esaú, Jacó fica sozinho e é agredido por um desconhecido, com quem luta a noite inteira. Esta luta corpo a corpo – que encontramos no capítulo 32 do Livro do Gênesis – se converte para ele em uma singular experiência de Deus.

A noite é o momento favorável para agir escondido; é o tempo oportuno, portanto, para Jacó, de entrar no território do irmão sem ser visto e talvez com a ilusão de pegar Esaú de surpresa. No entanto, é ele quem é surpreendido por um ataque imprevisto, para o qual não estava preparado. Havia usado sua astúcia para tentar evitar uma situação perigosa, acreditava ter tudo sob controle e, no entanto, encontra-se agora tendo de enfrentar uma luta misteriosa que o surpreende em solidão e sem dar-lhe a oportunidade de organizar uma defesa adequada. Indefeso, à noite, o patriarca Jacó luta contra alguém. O texto não especifica a identidade do agressor; usa um termo hebraico que indica “um homem” de maneira genérica, “um, alguém”; trata-se de uma definição vaga, indeterminada, que quer manter o assaltante no mistério. Está escuro, Jacó não consegue distinguir seu adversário, e também para nós permanece o mistério; alguém enfrenta o patriarca e este é o único dado seguro que nos dá o narrador. Somente no final, quando a luta já terminou e esse “alguém” desapareceu, só então Jacó o nomeará e poderá dizer que lutou contra Deus.

O episódio se desenvolve na escuridão e é difícil perceber não só a identidade do assaltante de Jacó, senão também como se deu a luta. Lendo o texto, é difícil estabelecer qual dos dois adversários está ganhando; os verbos são usados frequentemente sem um sujeito explícito e as ações acontecem quase de forma contraditória; então, quando parece que um dos dois vai prevalecer, a ação seguinte desmente isso imediatamente e apresenta o outro como vencedor. No começo, de fato, Jacó parece ser o mais forte, e o adversário – diz o texto – “não podia vencê-lo” (v. 26); finalmente, atinge Jacó no fêmur, provocando-lhe um deslocamento. Poderíamos pensar que Jacó sucumbe; no entanto, é o outro que lhe pede que o deixe partir; mas o patriarca se nega, impondo uma condição: “não te largarei, se não me abençoares” (v. 27). Aquele que de maneira enganosa havia roubado do seu irmão a bênção do primogênito agora a quer de um desconhecido, de quem talvez começa a perceber as conotações divinas, sem poder reconhecê-lo verdadeiramente.

O rival, que parece estar retido e portanto, derrotado por Jacó, ao invés de ceder à petição do patriarca, pergunta seu nome: “Qual é o teu nome?”. O patriarca lhe responde: “Jacó” (v. 28). Aqui a luta dá um giro importante. Conhecer o nome de alguém implica em uma espécie de poder sobre a pessoa, porque o nome, na mentalidade bíblica, contém a realidade mais profunda do indivíduo, desvela o segredo e o destino. Conhecer o nome de alguém quer dizer conhecer a verdade sobre o outro e isso permite poder dominá-lo. Quanto, portanto, por petição do desconhecido, Jacó revela seu nome, está se colocando nas mãos do seu adversário, é uma forma de render-se, de entregar-se totalmente ao outro.

Mas, nesse gesto de rendição, Jacó também acaba sendo vencedor, paradoxalmente, porque recebe um nome novo, junto ao reconhecimento de vitória por parte do seu adversário, que lhe diz: “Doravante não te chamarás Jacó, mas Israel, porque lutaste com Deus e com homens, e venceste” (v. 29). “Jacó” era um nome que recordava a origem problemática do patriarca; em hebraico, de fato, recorda o termo “calcanhar” e remete o leitor ao momento do nascimento de Jacó, quando, saindo do ventre materno, agarra o calcanhar do seu irmão gêmeo (Gn 25, 26), quase pressagiando o dano que realiza ao seu irmão na idade adulta. Mas o nome de Jacó recorda também o verbo “enganar, suplantar”. E agora, na luta, o patriarca revela ao seu oponente, em um gesto de rendição e doação, sua própria realidade de quem engana, quem suplanta; mas o outro, que é Deus, transforma esta realidade negativa em positiva: Jacó, o defraudador, se converte em Israel; é-lhe dado um nome novo que lhe confere uma nova identidade. Mas também aqui o relato mantém sua duplicidade, porque o significado mais provável de Israel é “Deus forte, Deus vence”.

Portanto, Jacó prevaleceu, venceu – é o próprio adversário quem afirma isso -, mas sua nova identidade, recebida do próprio adversário, afirma e testemunha a vitória de Deus. E quando Jacó pergunta, por sua vez, o nome do seu oponente, este não quer dizer-lhe, mas o revela em um gesto inequívoco, dando-lhe sua bênção. Esta bênção que o patriarca havia lhe pedido no começo da luta lhe é concedida agora. E não é uma bênção obtida mediante engano, mas gratuitamente concedida por Deus, que Jacó pode receber porque está sozinho, sem proteção, sem astúcias nem enganos; entrega-se indefeso, aceita a rendição e confessa a verdade sobre si mesmo. Por isso, no final da luta, recebida a bênção, o patriarca pode finalmente reconhecer o outro, o Deus da bênção: “Vi Deus face a face e minha vida foi poupada” (v. 31); agora pode atravessar o vau, carregando um nome novo, mas “vencido” por Deus e marcado para sempre, mancando devido ao ferimento recebido.

As explicações que a exegese bíblica oferece com relação a este fragmento são muitas; em particular, os estudiosos reconhecem aqui tentativas e componentes literários de vários tipos, como também referências a algum conto popular. Mas quando estes elementos são assumidos pelos autores sagrados e englobados no relato bíblico, mudam de significado e o texto se abre a dimensões mais amplas. O episódio da luta no Jaboc se mostra ao crente como texto paradigmático no qual o povo de Israel fala da sua própria origem e delineia os traços de uma relação especial entre Deus e o homem. Por isso, como se afirma também no Catecismo da Igreja Católica, “atradição espiritual da Igreja divisou nesta narrativa o símbolo da oração como combate da fé e vitória da perseverança” (n. 2573). O texto bíblico nos fala da longa noite da busca de Deus, da luta para conhecer o nome e ver seu rosto; é a noite da oração que, com tenacidade e perseverança, pede a Deus a bênção e um nome novo, uma nova realidade, fruto da conversão e do perdão.

A noite de Jacó no vau de Jaboc se converte, assim, para o crente, em um ponto de referência para entender a relação com Deus que, na oração, encontra sua máxima expressão. A oração exige confiança, proximidade, quase um corpo a corpo simbólico, não com um Deus adversário e inimigo, mas com um Senhor que abençoa e que permanece sempre misterioso, que aparece como inalcançável.

Por isso,o autor sacro utiliza o símbolo da luta, que envolve força de ânimo, perseverança, tenacidade em alcançar o que se deseja. E se o objeto do desejo é a relação com Deus, sua bênção e seu amor, então a luta só pode culminar no dom de si mesmo a Deus, no reconhecimento da própria fraqueza, que vence quando consegue abandonar-se nas mãos misericordiosas de Deus.

Queridos irmãos e irmãs, toda a nossa vida é como esta longa noite de luta e de oração, de consumar no desejo e na petição de uma bênção de Deus que não pode ser arrancada ou conseguida somente com as nossas forças, mas que deve ser recebida com humildade d’Ele, como dom gratuito que permite, finalmente, reconhecer o rosto de Deus. E mais ainda: Jacó, que recebe um nome novo e se converte em Israel, também dá ao lugar um nome novo, onde lutou com Deus, rezou-lhe; nomeia-o Fanuel, que significa “rosto de Deus”. Com esse nome, ele reconhece que o lugar está cheio da presença do Senhor; santifica essa terra, dando-lhe o selo daquele misterioso encontro com Deus. Aquele que se deixa abençoar por Deus, abandona-se n’Ele, deixa-se transformar por Ele, torna o mundo abençoado. Que o Senhor nos ajude a combater a boa batalha da fé (cf. 1Tm 6,12; 2Tm 4,7) e a pedir, na nossa oração, a sua bênção, para que nos renove na espera de ver seu rosto.

Obrigado!

A oração intercessora de Abraão

Abaixo catquese do Papa do dia 18-05 sobre a oração intercessora de Abraão. Vale a pena ler.

Queridos irmãos e irmãs:

Nas duas últimas catequeses, refletimos sobre a oração como fenômeno universal, que – inclusive de diversas formas – está presente nas culturas de todas as épocas. Hoje, no entanto, eu gostaria de começar um percurso bíblico sobre este tema, que nos conduzirá a aprofundar no diálogo de aliança entre Deus e o homem, presente na história da salvação, até o seu cume, a Palavra definitiva que é Jesus Cristo. Este caminho nos fará deter-nos em alguns textos importantes e figuras paradigmáticas do Antigo e do Novo Testamentos. Será Abraão, o grande patriarca, pai de todos os crentes (cf. Rm 4,11-12.16-17), quem nos oferecerá o primeiro exemplo de oração, no episódio de intercessão pela cidade de Sodoma e Gomorra. E eu gostaria de vos convidar a aproveitar este percurso que faremos nas próximas catequeses para aprender a conhecer melhor a Bíblia, que espero que tenhais em vossas casas; e, durante a semana, podeis lê-la e meditá-la na oração, para conhecer a maravilhosa história da relação entre Deus e o homem, entre o Deus que se comunica conosco e o homem que responde, que reza.

O primeiro texto sobre o qual refletiremos se encontra no capítulo 18 do livro do Gênesis; conta-se que a maldade dos habitantes de Sodoma e Gomorra estava chegando ao seu limite, tanto que se fez necessária uma intervenção de Deus para realizar um grande ato de justiça e frear o mal, destruindo aquelas cidades. Aqui intervém Abraão, com sua oração de intercessão. Deus decide revelar-lhe o que vai lhe acontecer e lhe faz conhecer a gravidade do mal e suas terríveis consequências, porque Abraão é seu escolhido, escolhido para construir um grande povo e fazer que o mundo inteiro alcance a bênção divina. A sua é uma missão de salvação, que deve responder ao pecado que invadiu a realidade do homem; através dele, o Senhor quer levar a humanidade à fé, à obediência, à justiça. E então, este amigo de Deus se abre à realidade e às necessidades do mundo, reza pelos que estão a ponto de ser castigados e pede que sejam salvos.

Abraão enfrenta, logo depois, o problema em toda a sua gravidade e diz ao Senhor: “Vais realmente exterminar o justo com o ímpio? Se houvesse cinquenta justos na cidade, acaso os exterminarias? Não perdoarias o lugar por causa dos cinquenta justos que ali vivem? Longe de ti proceder assim, fazendo morrer o justo com o ímpio, como se o justo fosse igual ao ímpio! Longe de ti! O juiz de toda a terra não faria justiça?” (vv. 23-25). Com estas palavras, com grande coragem, Abraão apresenta a Deus a necessidade de evitar a justiça sumária: se a cidade é culpada, é justo condenar e infligir a pena, mas – afirma o grande patriarca – seria injusto castigar de modo indiscriminado todos os habitantes. Se na cidade há inocentes, estes não podem ser tratados como culpados. Deus, que é um juiz justo, não pode agir assim, diz Abraão, justamente, a Deus.

Ao lermos mais atentamente o texto, percebemos que a petição de Abraão é ainda mais séria e profunda, porque não se limita a pedir a salvação para os inocentes. Abraão pede o perdão para toda a cidade e o faz apelando à justiça de Deus. Ele diz, de fato, ao Senhor: “Não perdoarias o lugar por causa dos cinquenta justos que ali vivem?” (v. 24b). Dessa maneira, coloca em jogo uma nova ideia de justiça: não a que se limita a castigar os culpados, como os homens fazem, mas uma justiça diferente, que busca o bem e o cria através do perdão que transforma o pecador, converte-o e o salva. Com a sua oração, portanto, Abraão não invoca uma justiça meramente retributiva, mas uma intervenção de salvação que, levando em conta os inocentes, liberta da culpa também os ímpios, perdoando-os. O pensamento de Abraão, que parece quase paradoxal, poderia se resumir assim: obviamente, não se pode tratar os inocentes como os culpados, isso seria injusto; é necessário, no entanto, tratar os culpados como os inocentes, realizando um ato de justiça “superior”, oferecendo-lhes uma possibilidade de salvação, porque, se os malfeitores aceitam o perdão de Deus e confessam sua culpa, deixando-se salvar, não continuarão fazendo o mal; eles se converterão também em justos, sem necessitar jamais ser castigados.

É esta a petição de justiça que Abraão expressa em sua intercessão, uma petição que se baseia na certeza de que o Senhor é misericordioso. Abraão não pede a Deus uma coisa contrária à sua essência; ele bate à porta do coração de Deus conhecendo sua verdadeira vontade. Já que Sodoma é uma grande cidade, cinquenta justos parecem pouca coisa, mas a justiça de Deus e seu perdão não são talvez a manifestação da força do bem, ainda que este pareça menor e mais fraco que o mal? A destruição de Sodoma deveria frear o mal presente na cidade, mas Abraão sabe que Deus tem outras maneiras e meios para frear a difusão do mal. É o perdão que interrompe a espiral do pecado e Abraão, em seu diálogo com Deus, apela exatamente a isso. E quando o Senhor aceita perdoar a cidade se encontrar nela cinquenta justos, sua oração de intercessão começa a descer aos abismos da misericórdia divina. Abraão – como recordamos – diminui progressivamente o número dos inocentes necessários para a salvação; se não forem cinquenta, poderiam ser quarenta e cinco, e assim por diante, até chegar a dez, continuando com a sua súplica, que se torna audaz na insistência: “E se forem só quarenta… trinta… vinte… dez?” (cf. v. 29. 30. 31. 32). E, quanto menor é o número, maior se revela e se manifesta a misericórdia de Deus, que escuta com paciência a oração, acolhe-a e repete depois de cada súplica: “Perdoarei… Não a destruirei… Não o farei” (cf. v. 26. 28. 29. 30. 31. 32).

Assim, pela intercessão de Abraão, Sodoma poderá ser salva, se nela se encontrarem apenas dez inocentes. Este é o poder da oração. Porque, através da intercessão, da oração a Deus pela salvação dos outros, se manifesta e se expressa o desejo de salvação que Deus tem sempre com relação ao pecador. O mal, de fato, não pode ser aceito, deve ser apontado e destruído através do castigo: a destruição de Sodoma tinha esta intenção. Mas o Senhor não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva (cf. Ez 18,23; 33,11); seu desejo é perdoar sempre, salvar, dar a vida, transformar o mal em bem. E este é o desejo divino que, na oração, se torna também desejo do homem e se expressa por meio das palavras de intercessão. Com sua súplica, Abraão está emprestando sua voz, mas também seu coração à vontade divina: o desejo de Deus é misericórdia, amor e vontade de salvação, e este desejo de Deus encontrou em Abraão e na sua oração a possibilidade de manifestar-se de maneira concreta na história dos homens, para estar presente onde há necessidade de graça. Com a voz da sua oração, Abraão está dando voz ao desejo de Deus, que não é o de destruir, mas o de salvar Sodoma, dar vida ao pecador convertido.

Isso é o que o Senhor quer, e seu diálogo com Abraão é uma prolongada e inequívoca manifestação do seu amor misericordioso. A necessidade de encontrar homens justos na cidade se converte cada vez mais em menos exigente e, no final, bastam dez para salvar a totalidade da população. Por que motivo Abraão se deteve em dez, o texto não diz. Talvez seja um número que indica um núcleo comunitário mínimo (ainda hoje, dez pessoas constituem o quorum necessário para a oração hebraica). De qualquer forma, trata-se de um número exíguo, uma pequena parcela do bem para salvar um grande mal. Mas nem sequer dez justos se encontravam em Sodoma e Gomorra e as cidades foram destruídas – uma destruição paradoxalmente necessária para a oração de intercessão de Abraão. Porque precisamente essa oração revelou a vontade salvífica de Deus: o Senhor estava disposto a perdoar, desejava fazê-lo, mas as cidades estavam fechadas em um mal total e paralisante, sem ter nem ao menos alguns poucos inocentes a partir dos quais começar a transformar o mal em bem.

Porque é este o caminho de salvação que também Abraão pedia: ser salvos não quer dizer simplesmente escapar do castigo, mas ser libertados do mal que nos habita. Não é o castigo que deve ser eliminado, mas o pecado, essa rejeição de Deus e do amor que leva em si o castigo. Dirá o profeta Jeremias ao povo rebelde: “Teu crime te castigue, tua infidelidade sirva para tua correção! Reconhece e vê como é ruim e amargo teres abandonado o Senhor, teu Deus” (Jer 2,19). É dessa tristeza e amargura que Deus quer salvar o homem, libertando-o do pecado. Mas é necessária uma transformação a partir do interior, uma gota de bem, um começo do qual partir para transformar o mal em bem, o ódio em amor, a vingança em perdão. Por isso, os justos tinham que estar dentro da cidade e Abraão continuamente repete: “Talvez lá haja…”, “lá”: é dentro da realidade doente que deve estar esse gérmen de bem que pode curar e devolver a vida. É uma palavra dirigida também a nós: que em nossas cidades haja um gérmen de bem; que façamos o necessário para que não sejam apenas dez justos, para conseguir realmente fazer que nossas cidades vivam e sobrevivam, para salvá-las dessa amargura interior que é a ausência de Deus. E, na realidade doente de Sodoma e Gomorra, aquele gérmen de bem não estava presente.

Mas a misericórdia de Deus na história do seu povo se amplia mais tarde. Se para salvar Sodoma eram necessários dez justos, o profeta Jeremias dirá, em nome do Onipotente, que basta somente um justo para salvar Jerusalém: “Percorrei as ruas de Jerusalém, olhai, descobri, procurai também nas praças, se há alguém que pratique o direito, alguém que busque a sinceridade, para que, então, eu perdoe a cidade” (Jer 5,1). O número diminuiu mais ainda, a bondade de Deus se mostra ainda maior. E nem sequer isso basta, a sobreabundante misericórdia de Deus não encontra a resposta do bem que busca e Jerusalém cai sob o assédio dos inimigos. Será necessário que Deus se converta nesse justo. E este é o mistério da Encarnação: para garantir um justo, Ele mesmo se faz homem. O justo estará sempre presente, porque é Ele: é necessário que o próprio Deus se converta nesse justo. O infinito e surpreendente amor divino é manifestado em sua plenitude quando o Filho de Deus se faz Homem, o Justo definitivo, o perfeito Inocente, que levará a salvação ao mundo inteiro morrendo na cruz, perdoando e intercedendo por aqueles que “não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Então, a oração de todo homem encontrará resposta; então, todas as nossas intercessões serão plenamente escutadas.

Queridos irmãos e irmãs, a súplica de Abraão, nosso pai na fé, nos ensina a abrir cada vez mais o coração à misericórdia sobreabundante de Deus, para que, na oração cotidiana, saibamos desejar a salvação da humanidade e pedi-la com perseverança e confiança ao Senhor, que é grande no amor.

Obrigado!